A Simplicidade de Raabe

Michaella Azevêdo • 19 de Maio de 2018

Quando iniciamos o encargo da publicação das crônicas, fiz uma lista de todos os assuntos sobre os quais gostaria de escrever. Ocorre que, talvez pela força do hábito da graduação, adquiri o costume de criar uma série lógica ou de assuntos interligados, o que justifica o fato de, mais uma vez, eu falar sobre uma personagem bíblica. De fato, se você não leu o meu texto anterior, a minha profunda admiração pelas mulheres citadas nas Escrituras é novidade; se você, todavia, já o leu, peço desculpas pela repetição, mas é que me fascina a riqueza de detalhes que tais histórias nos trazem.

Naquela oportunidade, falei acerca de Acsa, e posso afirmar que, apesar de sua aparição ser tão curta no livro de Juízes, jamais vou me esquecer do quanto ela me ensinou.

Agora, desejo compartilhar um pouco sobre uma mulher talvez mais conhecida do que Acsa, mas cuja história eu nunca havia meditado nas entrelinhas, tampouco na sua importância para os planos de Deus, embora já tivesse passado por ela várias vezes. Trata-se de Raabe.

Ora, você, assim como eu, provavelmente já ouviu falar a respeito da conquista da conquista de Jericó, e da marcha que derrubou os muros dessa cidade que mais parecia uma fortaleza. Pois bem, tomando essa história como pano de fundo, é que nos deparamos com Raabe. Quando Josué estava para possuir Canaã, mandou que dois homens espionassem a cidade de Jericó. Era uma atitude ousada e arriscada da parte do líder de Israel, afinal, aqueles dois soldados infiltrados num terra inimiga poderiam se tornar alvos fáceis. Morava, porém, ali, a personagem tema da crônica de hoje, uma prostituta cananeia que provavelmente recebia homens em sua casa para mais do que uma simples hospedagem.

Quando finalmente a história de Raabe se cruzou com a do povo de Deus, talvez tenha lhe causado estranheza o fato daqueles dois hebreus que batiam à sua porta, mesmo estando ali em oculto e fora da vista do seu povo, haverem se limitado a pedir abrigo. Ela, pois, não somente permitiu que entrassem em sua casa, como os acolheu de forma hospitaleira (Tg 2:25).

Não demorou muito para que a presença dos espias fosse percebida na cidade, e aconteceu que mensageiros da parte do rei de Jericó foram enviados até a casa de Raabe em busca dos hebreus. Havia, assim, a opção daquela mulher de simplesmente entregar os espias e com isso, quem sabe, ganhar algum prestígio junto ao rei ou outro lucro qualquer; por outro lado, ela também sabia do temor do povo quanto a uma invasão dos israelitas. O que muitos, pois, poderiam ver como uma encruzilhada, Raabe viu como uma salvação.

Aquela mulher desafiou as leis do seu povo a fim de ajudar os homens hebreus e, mesmo sendo uma prostituta, sem qualquer garantia de que seu plano funcionaria, tampouco que seria recompensada, ela reconheceu o Deus dos israelitas como Senhor dos céus e da terra (Js 2:11) e confiou na palavra daqueles soldados que haviam sido enviados a Jericó (Js 2:21).

O fato que se segue é bastante conhecido: Israel marchou, conquistou e derrubou a cidade, preservando tão somente Raabe e todos quanto estavam em sua casa. Dessa forma, ela foi habitar com o povo de Deus, casou-se e teve um filho chamado Boaz, o mesmo que mais tarde viria a se unir com Rute, sendo os ancestrais do rei Davi e até da linhagem do próprio Senhor Jesus.

Ora, talvez eu não precisasse de toda essa narrativa, mas não é incrível o fato de mulheres como Raabe aparecerem na Bíblia de forma assim tão marcante? Embora talvez pudesse ser mais conveniente citá-las nas genealogias, Deus escolheu detalhar a sua história, sem que nada ficasse em oculto. A narrativa poderia tão somente ter mencionado a sua boa obra e ignorado quem ela era o que fazia. Todavia, nada foi camuflado e, ainda assim, isso não a impediu de fazer a diferença. De fato, quando Raabe teve diante de si a chance de salvar a sua casa e mudar a sua história, não pensou duas vezes e agiu como uma coragem que, em circunstâncias menores, me falta. Além disso, ela não fez muito, se comparado a tantos outros personagens bíblicos, mas o seu pouco foi fundamental para a conquista da terra de Jericó e para os planos de Deus.

Diante de todas essas coisas, encantada com a força e a determinação de Raabe, me peguei olhando para mim mesma. Tantas foram as vezes em que questionei a minha importância para Deus, me colocando numa posição de conforto, apática, julgando existirem pessoas tão mais capazes, hábeis, inteligentes e com muito mais a oferecer. E eis que a Bíblia traz a história dessa mulher, bem como toda a carga de sua vida, para me mostrar que basta ser sensível às necessidades, ter coragem quando preciso e não recuar ou temer diante das adversidades.

Deus não precisa de pessoas capazes e perfeitas em si mesmas; antes, Ele precisa daqueles que se disponham, com que possa contar. Talvez Raabe jamais imaginasse que, muitos anos depois, um descendente seu seria rei em Israel, derrotaria um gigante e muito menos que, num futuro distante, seu nome estaria na linhagem Daquele que viria para salvar todo o povo do pecado. Raabe apenas abriu sua casa, e o que se seguiu foi graças a isso. Quantas coisas maravilhosas não estão à espera de que portas sejam abertas para que finalmente venham a acontecer? Uma dessas portas podem ser a sua, ou a minha... Somente com o tempo é que entendemos os planos do Senhor, mas, muitas vezes, eles começam de maneira simples tal qual o girar de uma maçaneta.

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